05 de agosto de 2004

Político Mais Votado

A cidade não cabe dizer. O nome, tão pouco. É fato que o fato ocorreu de fato. Ano eleitoral, ele e comitiva estavam à atazanar a situação. Até aí nada de novo. Oposição está aí para isso mesmo. O problema residia no marketing da campanha: malhar prefeito todo mundo malha, execrar intimidades pessoais e de familiares era método próprio. Começava com as sem-vergonhices administrativas, passava para as pessoais, para as de cunho conjugal e estendia a indiscrição à comiseração familiar. Fazia um certo sucesso político, até porque, passasse despercebido, não teria sofrido as represálias aqui narradas. Era correligionário dissidente, por isso sabia das mumunhas. Primeiro foi tesoureiro de campanha e depois fiel secretario, até a descompatibilização para candidatura própria. Padrinho da filha única, foi lançado como sucessor indicado, com direito a apoio em palanque e incentivo partidário. Aí fez conchavo pensando no vice e virou oposição. Quem diria? Ele mesmo, em discurso inflamado! Contou a novidade rasgando a bandeira do partido e hasteando aquela outra. Foi uma decepção. No dia seguinte foi manchete nos jornais. Deu entrevistas, deu nomes e contas em banco. A seu favor tinha a ousadia. Contra, tinha 62% dos pesquisados. Melhorou um pouco esse percentual a medida que se aproximava a data das urnas. Continuava delatando e melhorando semana-a-semana." - O calhorda não paga pensão para os próprios filhos" - seis pontos percentuais positivos. "A situação da saúde é inversamente proporcional ao patrimônio pessoal" - mais oito pontos percentuais positivos. "A patroa anda saindo com a metade da população da cidade; justamente a metade masculina" - perdeu oito pontos percentuais e mais quatro (oito dos que se sentiram envolvidos no escândalo e os outros quatro, dos que gostariam de estar). Devia saber que era uma campanha suicida. Não fazia idéia. Contou das apropriações indébitas, dos superfaturamentos, das licitações fraudulentas. Falou tanta coisa que, sinceramente, achei que o tal ia virar Procurador da União. Mas acabou como acabou: três dias antes das urnas, quando perdia por menos de 12%, sofreu uma emboscada num descampado e apanhou como prefeito empossado. Eram seis, segundo a vitima, mas pareciam doze, segundo o corpo clínico. Todo quebrado foi hospitalizado na Santa Casa de Misericórdia onde aguardou o desfecho da campanha eleitoral. Ficou ali, escoltado pela policia militar, que jamais desconfiou que a tal emboscada havia sido encomendada por ele mesmo. A história foi essa: perdeu feio. Vinte e quatro horas depois de encerrada as apurações, ele voltava aos noticiários da região como político mais votado dos últimos tempos. Os votos a que se referiam os da imprensa, eram de boa saúde e pronto restabelecimento. Foram mais de 600 mil. Se bem que, devidamente apurados, muitos continham o mesmo endereço e o mesmo CPF.

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