27 de junho de 2004

Canário Nacionalistas

Bichinho bonito estava ali: miúdo e extravagante. Transbordava elogios ao expor, publicamente, a estupenda plumagem amarelo-fubá. Atendia pelo nome artístico de "Barbosa". Na verdade não atendia a coisa nenhuma, muito menos ao chamado de Barbosa. Mesmo assim, carregava a alcunha. Estava alheio a balbúrdia e a curiosidade dos espectadores, dormindo pesadão. Lembrava, por mera questão ilustrativa, uma discreta tangerina arrepiada a equilibrar-se em uma das pernas. Dormia indiferente à coleta de recursos que corria a sua volta. O dinheiro arrecadado patrocinaria uma apresentação lírica que deveria acontecer assim que ele despertasse. Acontece que o Barbosa era um conceituado canarinho de exposição que, além de bacanérrimo, cantava, de fio-a-pavio, a primeira parte do Hino Nacional. E era por conta dessa peculiaridade canora que o Aparício - dono do Barbosa - organizava a audição. Tomava dez pratas de cada espectador, prometendo uma oportunidade única. Uma vez que a maioria dos presentes duvidasse da façanha proposta, ficou combinado que, caso o canário não cumprisse o prometido, o dinheiro voltaria para a mão da distinta platéia. Foi aí que alguns mais escolados escreveram, na própria nota, o nome e endereço. Para não serem surpreendidos, na hora da troca, por cédulas caseiras recém-impressas. O programa seria o seguinte: assim que o pássaro despertasse, cumpriria um ritual de aquecimento que incluiria algumas dúzias de saltos entre os poleiros; uma parada ao bebedouro para servir-se de água fresca; espreguiçar-se-ia; afinaria a voz por um instante e lascaria o prometido. Feito o resumo da ópera, todo mundo arrepiou. Então o Barbosa acordou. Indiferente, sacudiu-se todo. Atirou uma das pernas para o lado, esticou as asas demoradamente e aqueceu-se entre os poleiros. Inquietação no auditório. Serviu-se da água do bebedouro, arriscou uns apitos, encheu o peito e mandou os afinados acordes. Cantou mais bonito do que o Silvio Caldas no início de carreira, levando, inclusive, alguns às lágrimas sentidas. Cantou, cantou, cantou... porém, Hino Nacional, que é bom, nada! Então a coisa pegou. Com aquele costumeiro refrão do "eu sabia que era trapaça", a turma do mata-ele correu para o lado do Aparício que, impávido, meteu, em definitivo, o dinheiro dentro do bolso da jaqueta. Diante da socassão, que fatalmente iria generalizar-se, o empresário da voz recolheu a gaiola, pediu pela ordem e explicou a tempo: "Tá cumprido o prometido. O Barbosa fez tudo o que foi proposto. Inclusive cantou de cabo-a-rabo, o tal Hino Nacional. O que se esquecem, os senhores, é que o Barbosa é um Canário-Belga e, portanto, o hino é idem. Tá aí!". Deu uma risadinha de bem feito e dirigiu-se, escoltado por todo o grupo, para a Visconde de Mauá, rua sede da delegacia mais próxima: décima-segunda, bairro de Madureira.

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