23 de agosto de 2006

É assaltando que a gente se entende

- Não afoba não que é um assalto. - puxou o revólver que pressionava as costelas até onde o outro pudesse perceber que ele dizia a verdade.
- Opa! De novo?!
- De novo por que? A gente já se conhece?
- Não está me reconhecendo?
- Deixa eu ver... tô não!
- Da televisão!
- Essa não! Acredita que um vigarista, dia desses, levou a televisão lá de casa? Êta categoria desunida. Tirando meus parentes não reconheço mais ninguém.
- Pena, precisava ver a entrevista que eu dei no começo do mês: "um dos dez mais assaltados". Rede nacional. Como refém só fico devendo para agente penitenciário.
- O homem do Gugu! - ele falou espantado - O pessoal comentou... Muito prazer: Otacílio - cumprimentou sem atropelos porque segurava a arma com a mão esquerda.
- Prazer meu. Em que posso ser útil?
- Opa, já estava distraindo. Bom... pra fazer seqüestro relâmpago a pé é mancada. Então eu acho que vou ficar com a carteira e os cartões de crédito e banco. Mas você me passa a senha e me dá quinze minutos.
- Pera lá: com um três-oitão-cano-curto, como este, você quer carteira, documentos, cartão... ah, não! Esse bicho está mais enferrujado do que casco de cargueiro. Está mais perigoso morrer de tétano do que de tiro. Não dá não... com esse revólver só passo a carteira. Aliás, só passo o dinheiro.
- Tá tirando uma é? Três-oitão ainda é três-oitão. Se quizer pode ver a tabela do sindicato.
- Pra três-oitão-cano-curto não. E outra: imagine uma celebridade, como eu, tomar um tiro de trinta e oito. Fosse lá uma nove milímetros ou uma ponto quarenta, ainda vai. É como tomar tiro de vinte e dois: tá na cara que é enrosco com mulher! Cada profissional na sua área. Tome a carteira. - retirou o dinheiro.
- Sessenta reais? Tô falando que esse negócio de televisão é só embromação! Cê não tem vergonha de andar com sesseta reais no bolso? Depois a gente monta quadrilha pra fazer assalto a banco e a turma mete o pau. Sessenta reais não dá. Faz um cheque.
- Cheque eu não trabalho. Tarifa de banco está um roubo.
- Vale-refeição. Passa os vales-refeição.
- Vale-refeição e metrô-integração, toma.
- Quem é essa moça bonita aqui na carteira?
- É a Dagmar. Está vendo a mãe dela na foto ao lado? Não é mãe dela coisa nenhuma, é ela mesma. Pode levar as duas.
- Legal, a Dagmar velha eu dou pro meu sogro. Posso ficar com o Santo Expedito?
- Fica!
- Hummm... duas entradas pro show do Luis Airão...
- Pode ficar, também. Sem querer ser grosseiro, preciso ir. Tenho dentista as nove.
- Nem me fale! Marquei um gastro hoje a tarde. Meu estômago está me matando.
- Então vou indo, tudo bem?
- Tudo bem. Ah!, só mais uma coisa. Sem querer passar por ladrão metido a pretencioso, quando você voltar no programa da TV, já que você é um sucesso e provavelmente vai voltar, será que não podia falar do nosso encontro, inventar alguma coisa engraçada?
- História engraçada? Como o quê?
- Sei lá... que eu estava te assaltando e na hora que você tirou a mão do bolso você puchou o maço de dinheiro grudado num doce melado. Aí ficou tudo grudado: a minha mão no dinheiro, o dinheiro no revólver, o revólver no casaco... Sei lá...
- Não sei... acho que ia comprometer a sua imagem e a minha também. Precisava ser uma coisa mais real. Mais paupável.
- Como o quê?
- Também não sei. Que tal se você estivesse me assaltando e, de repente, eu te rendesse e apontasse a arma pra você. Aí, a polícia, que estava passando exatamente nessa hora, resolvesse me autuar em flagrante. Eu ficava de bandido e você de mocinho.
- Mas o que os amigos iam dizer? Eu de mocinho? Além do mais você ia preso. Como contornar um enrosco desses?
- Não ia preso não. A gente conta que você tem um bom coração e que não registrou queixa na delegacia. Quem sabe o pessoal até queira te chamar para dar um depoimento.
- Eu na TV?
- Já pensou? Ia ficar famoso. Ia ter fila pra tomar um assalto seu.
- Cê acha?
- Tenho certeza. Olha o meu exemplo!
- Você contaria essa história por mim?
- E porque não? Até pro meu currículo seria uma promoção pessoal.
- Então estamos combinado: na primeira oportunidade você inventa essa. Vai com Deus. Foi um prazer manter você entre os dez mais assaltados.
- Ia esquecendo... obrigado por isso também. Aguardo você na TV... - e foram.
A história encerraria aqui, não fosse a polícia, por conta de uma certa denúncia anônima, organizar uma batida no tal show do Luiz Airão e na cadeira indicada achar o pilantra acompanhado de umazinha que eu vou te contar.
Outra história da crônica policial que ele acabou contando, outro dia, quando voltou naquele mesmo programa de TV, que foi o maior sucesso.

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